terça-feira, 12 de junho de 2012

'Eu quero um amor que tire os meus pés do chão e me faça flutuar, pular de nuvem em nuvem, brincar de ser céu. Que me traga flores frescas no inverno e aceite pintar a casa de goiaba, sujando o nariz e o traje com o pincel. E correr por todos os cômodos, arrastar o sofá, quebrar o vaso de porcelana e rir até o fôlego falhar. Quero que cale a boca e me beije. Assim, sem pudor ou desvantagem, sem timidez ou urgência; apenas sedento pela fome dos meus lábios. Quero um amor que permita o êxtase desperto, que nos ventos soltos me acorrente com as mãos, embora o amanhã seja incerto. Quero um coração bêbado de paixão, louvado pelo silêncio, onde eu possa correr quando quiser sentir o mundo girar em círculos, mas também possa caber em um abraço férreo, erguendo muros envoltos em sombras nos dedos. Onde eu possa ser carregada quando os pés puídos esgotarem o restante de alento. Quero ouvir o meu nome soprar em tom diferente, a íris de azeviche lampejar a faísca, a mão arranjando pretexto para se enroscar com a minha, o passo seguindo o fluxo do meu. Eu quero um amor que me livre do mar sobre minhas costas, o acúmulo de espinhos afincados em flores, e atenue o peso um pouco. Quero ser pecado, mas ser pecado perdoado. Quero ser amor cru, nu; em carne e osso, em alma.
— Camila M. Paiffer

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